Caminhar - Igor Bueno
A existência lateja incessante por travessia. É o solo fértil para o desmembramento do pulso em trajetória única ao seu portador.
Local tão vasto esta palavra "eu", que dirá "nós".
Cada passo é uma paisagem mutuamente provocativa por todas as direções.
Embora haja sempre o desvendar do ir como flecha, consonando ao mistério, surpresa, é também de cíclica errática e inacabada locomoção onde se rememora diferentemente experiências no chamado agora. Vida sobre vida, acúmulo de âmago tão íntimo quanto comungado.
O que é a vida senão este atravessamento em constatação não linear?
Imagino as pedras em sua maturidade.
Andar por mim começou antes dos primeiros passos dados, mesmo aqueles por outros sentidos ou partes do corpo. Me lanço à pedagogia caminhante onde narrar uma história é como caminhar com as palavras e caminhar com os pés mundo afora é como topar com palavras completadas pela terra.
Distanciar-se e ser íntimo dos acontecimentos, movimentos. Até onde há controle da poética andante? O que te convoca percursos e acende tua humana longevidade, tão antiga quanto a imaginação?
Tentar engaiolar o vento dos destinos é como espremer o desejo dos sonhos.
Já não cabe mais contestar a solidez da felicidade nem seu enfrentamento pela reviravolta deste mundo doente, espasmódico por tamanha repressão emocional. Nos inventaram o desejo estático, culpando a criatividade de ser possível demais.
Até mesmo o silêncio caminha.
Quem nunca foi até a Lua, mesmo que pelo mar ou pelo canto? Quem nunca foi até a Lua por alguém que ama? Quem nunca foi até a Lua para resmungar algo que só ela entende?
Estou aqui fadado a inúmeras não explicações; neste andor que se depara com a dor
De si, alheia, comum, excêntrica, histórica.
Apontar a rebeldia para os contornos da utilidade ordinária, rasurar o quanto for, se é raso pinto fundo, se é fundo pinto o rasgo no meio do buraco. Algo bom há de nascer! Corpo segue, guiado pelo que o fez ser tocável, guizando orgânica matéria, rufando pegadas e matrizes de trânsito aventuresco.
Minh'alma persegue voo em plantação, qual perambular dos pássaros em suas narrativas ao centro da Terra e bordas do céu. Me disseram que de tanto bordarem a vida, suas gargantas viraram lindas e melodiosas mensagens que orientam nossa chegada ao coração da voz e à voz do coração.
Canto com a terra a cada passo que dou. E ela encanta meus pés que não são só meus. Há outros tempos de passos passados passarados passando.
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